NVIDIA sob Fogo: Michael Burry Aposta Contra o Boom da IA — Bolha ou Revolução?

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O homem que previu a crise de 2008 está de volta. E desta vez, sua mira está apontada para o coração do vale do silício: a NVIDIA e o frenesi bilionário da inteligência artificial.

Michael Burry não está jogando confete. Ele está vendido em NVIDIA e Palantir — exatamente as estrelas mais brilhantes da constelação de IA. Sua tese? Simples e incômoda: estamos construindo uma infraestrutura astronômica para gerar receitas modestas. É o erro clássico: confundir oferta explosiva com demanda infinita.

E a NVIDIA não gostou nada disso.


O Duelo: Burry vs. NVIDIA — Quando o Gigante Responde

Raramente uma empresa do porte da NVIDIA se digna a rebater um investidor publicamente. Mas Burry não é qualquer investidor.

Após o fundador da Scion Capital comparar o boom da IA à bolha pontocom — e, mais especificamente, ao superciclo de telecom dos anos 90 — a fabricante de chips decidiu subir o tom. Enviou um memorando interno sigiloso a analistas, mencionando Burry pelo nome e rebatendo suas críticas ponto a ponto.

A resposta de Burry veio rápida e afiada em seu blog:

“A NVIDIA mandou um memo para o sell side tentando rebater meus pontos sobre compensação em ações e depreciação… Eu mantenho minha análise. Não estou dizendo que NVIDIA é a Enron – é claramente a Cisco.”

Traduzindo: ele não acha que é fraude. Acha que é excesso. Uma maratona corrida com pace de sprint.

Os Argumentos da NVIDIA

No tal memorando, revelado pelo Barron’s, a empresa rebateu cada acusação com régua e compasso:

1. Sobre diluição via ações: A NVIDIA alegou que Burry misturou impostos sobre ações no cálculo. Não foram US$ 112,5 bilhões em recompras, mas US$ 91 bilhões.

2. Sobre depreciação: A empresa negou que teria superestimado a vida útil das GPUs para justificar capex gigantes. Segundo a NVIDIA, a depreciação real gira entre quatro e seis anos. GPUs mais antigas, como as A100 lançadas em 2020, continuam firmes, fortes e altamente utilizadas.

3. Sobre “financiamento circular”: A empresa alegou que os investimentos representam uma fração minúscula da receita e que os aportes vêm, majoritariamente, de investidores externos — não de esquemas circulares.

Burry segue nada convencido.


A Tese de Burry: Fibra Óptica 2.0

Para Burry, o que vemos agora se parece menos com a bolha da internet e mais com o superciclo de telecom dos anos 90, quando o mundo achou que precisaria de fibra óptica daqui até Marte.

O resultado? Só 5% da fibra instalada chegou a ser efetivamente utilizada.

Burry enxerga três sinais de alerta piscando em vermelho:

1. Investimento sem retorno

Ferramentas de IA generativa como o ChatGPT capturaram a atenção global. Mas as receitas? Modestas. A OpenAI deve gerar pouco mais de US$ 20 bilhões este ano — número que fica minúsculo diante dos quase US$ 400 bilhões que as gigantes de tecnologia investem anualmente em infraestrutura de IA.

Há um desequilíbrio brutal entre investimento e retorno.

2. O problema da depreciação

Gigantes da nuvem compram servidores construídos em torno dos chips da NVIDIA, registrando-os como ativos com vida útil de seis anos. O problema? A NVIDIA lança novos chips mais eficientes todo ano, tornando modelos antigos obsoletos muito antes das empresas recuperarem seu investimento.

Burry vê uma contradição insustentável: a NVIDIA comercializa suas GPUs mais recentes como muito superiores, mas tranquiliza os clientes de que as mais antigas continuam valiosas.

Essa tensão pode minar a própria demanda que impulsionou as ações da NVIDIA a recordes históricos.

3. Expectativas duvidosas

Assim como só uma fração da fibra instalada nos anos 2000 foi utilizada, a narrativa de demanda infinita por IA depende de expectativas igualmente questionáveis.

Burry não está dizendo que IA é inútil. Está dizendo que o ritmo de investimento está descolado da realidade de adoção e monetização.


NVIDIA Responde com Números: Resultados do 3º Trimestre

Mas e se Burry estiver errado?

A NVIDIA divulgou resultados do terceiro trimestre que fizeram Wall Street respirar aliviada. Lucro líquido de US$ 31,9 bilhões — alta de 65% na comparação anual. Vendas cresceram 62%, atingindo US$ 57 bilhões, superando a projeção de US$ 54,9 bilhões.

O CEO Jensen Huang foi direto:

“As vendas da Blackwell estão disparando, e as GPUs para nuvem estão esgotadas.”

A mensagem é clara: os temores de uma bolha da IA são exagerados. A empresa também divulgou uma previsão de vendas otimista — cerca de US$ 65 bilhões para o quarto trimestre.

As ações da NVIDIA subiram 3,4% no pregão estendido.

O Impacto no Mercado

A NVIDIA se tornou a empresa de capital aberto mais valiosa do mundo e representa cerca de 8% do S&P 500. Isso significa que quase todos os investidores e titulares de planos de aposentadoria são impactados por seus resultados.

Thomas Monteiro, analista sênior da Investing.com, comentou:

“Isso responde a muitas perguntas sobre o estado da revolução da IA, e o veredicto é simples: está longe de atingir seu pico.”


Os Acordos Polêmicos: Financiamento Circular?

No cerne das preocupações com a bolha estão os acordos controversos que a NVIDIA fechou com empresas de IA.

Em setembro, a empresa investiu US$ 100 bilhões na OpenAI em troca da compra de chips. Recentemente, a Anthropic se comprometeu a comprar US$ 30 bilhões em capacidade computacional da Microsoft Azure — executada em chips NVIDIA — em troca de investimento no laboratório de IA.

Burry vê esses acordos como sintoma, não solução.

A diretora financeira da OpenAI, Sarah Friar, causou polêmica ao sugerir que o governo deveria garantir o endividamento das empresas de tecnologia para construir infraestrutura de IA — uma declaração que a empresa tentou retratar depois.


Desta Vez, Burry Não Está Sozinho

Em 2008, os alertas de Burry sobre o colapso imobiliário foram ignorados até a crise se desenrolar. Hoje, seu ceticismo parece ressoar mais rapidamente.

A forte queda em ações de IA como NVIDIA e Palantir neste mês sugere que outros investidores estão começando a questionar se as avaliações foram longe demais, rápido demais.

Gestores de fundos expressam preocupações crescentes de que ações de IA sejam precificadas como perfeição, com pouca margem de erro caso o crescimento da receita não acompanhe os investimentos de capital.

Diferente de 2008, Burry agora se vê acompanhado por um coro crescente de céticos que enxergam sinais de excesso no comércio de IA.

Curiosidade: Burry começou seu blog essa semana e em 3 dias já possui mais de 84 mil assinantes. Ele cobra uma assinatura de US$ 39 por mês para as publicações fechadas.


Conclusão: Quem Tem Razão?

Estamos diante de um impasse fascinante.

De um lado, Michael Burry, o homem que leu os sinais certos em 2008, alertando para um descompasso entre investimento astronômico e receitas reais. Ele enxerga fibra óptica 2.0: gastos massivos sem demanda proporcional.

Do outro, a NVIDIA, entregando resultados robustos, crescimento explosivo e uma narrativa convincente de que a revolução da IA está apenas começando.

Quem está certo?

Talvez os dois. Burry pode estar certo sobre o excesso de curto prazo. A NVIDIA pode estar certa sobre a transformação de longo prazo.

Mas há uma lição cristalina aqui: o mercado pode estar certo sobre o destino e errado sobre o timing. E timing, no mercado financeiro, é tudo.

A pergunta que fica é simples: você está disposto a apostar contra o homem que previu 2008?

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